Eu estava casada quando aconteceu.

Não o dia da traição, esse eu descobri depois, por acaso, daquele jeito que você descobre as coisas que preferiria nunca ter sabido. Estou falando do dia em que eu me dei conta de algo muito pior do que a traição dele.

A minha traição. Contra mim mesma.

Foi numa tarde comum, daquelas sem nada de especial acontecendo. Eu estava preparando o jantar, as mãos automáticas cortando legumes, a cabeça longe, pensando em nada e em tudo ao mesmo tempo.

E então veio aquele pensamento que você tenta empurrar pra baixo do tapete mas que insiste em voltar: "Se minha melhor amiga estivesse vivendo o que eu vivo nesse casamento, eu diria pra ela sair. Eu diria que ela merece mais. Eu diria que isso não é amor."

A faca parou no meio do movimento.

Porque se eu diria isso pra ela, por que eu não dizia pra mim mesma?

Deixa eu te contar como eu cheguei nesse ponto.

Eu casei fazendo o roteiro certinho que a gente aprende que tem que fazer. Igreja, festa, vestido, promessas, esperança de que aquilo seria o começo de uma vida feliz.

Mas por dentro, mesmo no dia do casamento, eu já sentia algo estranho. Uma voz pequenininha (a minha sensibilidade espiritual já dando recado), que eu fazia questão de não ouvir dizendo "esse sonho não é seu, foi herdado".

Tentamos ter filhos. Fiz tratamentos, esperei, esperei mais. O diagnóstico veio seco, sem delicadeza: você não vai poder ter filhos.

Fechei essa porta dentro de mim como quem fecha um quarto que dói demais entrar. Disse pra mim mesma que estava tudo bem, que a gente ia ser feliz mesmo assim, que tinha outras coisas na vida.

Não estava tudo bem.

Mas eu continuei fingindo… continuei aceitando... continuei cedendo em discussões que eu deveria ter enfrentado. Continuei em silêncio quando deveria ter falado. Continuei me diminuindo, me ajustando, me moldando pra caber num espaço que nunca foi feito pra mim.

E fui engordando.

Não é metáfora, cheguei a 110 quilos. Como se cada palavra que eu não dizia precisasse virar matéria. Cada frustração engolida ganhava peso. Cada limite que eu não colocava se acumulava dentro de mim.

Eu ocupava espaço porque por dentro me sentia invisível.

Quando a traição aconteceu, a dor foi devastadora. Aquele tipo de dor que corrói porque toca exatamente na ferida de não ser suficiente, de ser a escolha errada, de ser descartável.

Passei meses me perguntando o que tinha de errado comigo. O que a outra tinha que eu não tinha. Por que eu não fui suficiente.

Até que um dia, muito tempo depois, eu finalmente entendi:

Antes de ele me trair, eu já vinha me traindo há anos.

Aceitando migalhas de afeto. Normalizando tratamento que eu nunca aceitaria se fosse com alguém que eu amo. Me colocando sempre por último. Achando que me sacrificar era virtude quando na verdade era medo… de ficar sozinha, de não ser amada, de descobrir que eu não sabia quem eu era fora daquele papel de esposa que se anula.

A traição dele doeu, óbvio, mas a minha própria traição contra mim mesma, repetida todos os dias durante anos, essa destruiu algo muito mais profundo.

E eu preciso te dizer isso

A traição mais profunda não é a que os outros cometem contra você. É a que você comete contra si mesma todos os dias.

Quando você aceita um relacionamento que te diminui porque tem medo de ficar sozinha.

Ou quando você trabalha, ganha dinheiro, mas sempre aparece um imprevisto miraculoso que leva tudo embora e você continua sem entender o padrão que está operando.

Você olha pro próprio corpo com crueldade, negligência, como se ele fosse o último item da sua lista de prioridades.

Você se sente culpada por comprar algo pra si mesma, por dizer não, por se colocar em primeiro lugar por cinco minutos.

Quando você carrega o peso emocional da família inteira nas costas e se convence de que isso é amor, é cuidado, é o que você deve fazer.

Você está se traindo.

E a parte mais cruel? Você romantiza essa traição. Chama de generosidade. De amor. De cuidado com os outros.

Mas não é.

É medo disfarçado de virtude.

Depois que meu casamento acabou, muita coisa teve que desmoronar antes de poder se reconstruir de verdade.

Fiz a cirurgia bariátrica em 2013. Não porque eu tinha todas as respostas espirituais, mas porque pela primeira vez eu fiz um gesto direto de cuidado comigo. Perdi peso. Ganhei cicatrizes. Aprendi a olhar pra elas sem vergonha.

Conheci um novo companheiro. Engravidei… justo eu que não poderia ter filhos. Bento estava a caminho.

E então meu companheiro faleceu em um acidente de carro antes de chegar pra passar o Natal conosco. Fiquei grávida, em luto, desempregada, de volta à casa dos meus pais.

A dor era tão grande que eu afastei todo mundo. Mas no meio daquele caos entendi que havia uma escolha acontecendo: me afundar junto com o luto ou sustentar a vida que crescia dentro de mim.

Escolhi a vida.

E foi nesse processo, reconstruindo tudo do zero, que aprendi algo fundamental:

Sua principal missão nesse mundo não é salvar ninguém. É cuidar de você mesma.

Os outros são consequência dos atos deles, não dos seus. Você não é responsável por carregar o peso emocional de todo mundo. Não é responsável por fazer todo mundo feliz enquanto você se esvazia.

E quando você finalmente se coloca em primeiro lugar? As pessoas certas permanecem. As erradas saem. O dinheiro começa a ficar. O corpo respira. A culpa diminui.

Porque você entende que cuidar de si não é tirar de ninguém, é se preencher pra poder transbordar de verdade.

Então te pergunto agora:

O que você está aceitando na sua vida que você jamais aceitaria se estivesse acontecendo com alguém que você ama?

Se sua melhor amiga (ou amigo) te contasse que está num relacionamento onde ela(e) sempre cede, sempre se diminui, sempre fica em silêncio quando deveria falar, o que você diria pra ela?

Se sua irmã te dissesse que ganha dinheiro mas nunca consegue guardar, sempre aparece algo pra levar tudo, o que você diria?

Se sua filha te falasse que está exausta, que não cuida do próprio corpo porque "não dá tempo", o que você diria?

Você diria: "Sai disso." "Você merece mais." "Você precisa se colocar em primeiro lugar."

Mas quando é com você? Você normaliza. Justifica. Aceita.

Até quando?

Aprendi pelo caminho mais duro que existe. Precisei perder quase tudo pra finalmente me encontrar.

Mas você não precisa. Existe um caminho mais suave.

Neste mês das mulheres preparei alguns presentes pra quem está pronta pra parar de se trair. Se isso ressoou em você, entra aqui.
(este presente é apenas para mulheres por conta do Mês das Mulheres, mas isso tudo não são só mulheres que passam não. Ser humano em geral sente isso tudo).

Mas antes, responde essa pergunta pra você mesma(o) com honestidade brutal:

Até quando você vai continuar se traindo?

Silvia
O Portal

PS: Me segue no Instagram @terapeutasilviacarolo.

E se isso te acertou, encaminha pra 5 mulheres. Principalmente aquela que você sabe que está se traindo e fingindo que está tudo bem.

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