A visita se ofereceu para cozinhar… e claro que eu disse que sim.
Ela passou quarenta minutos na cozinha com uma atenção genuína.
O cheiro estava bom, o tempo certo, o cuidado era real.
Quando os pratos chegaram à mesa, todos estavam com fome e curiosos para experimentar a comida dela.
Todo mundo agradeceu, se serviu… e todo mundo levou a primeira garfada à boca…
E aí a mesa inteira fez silêncio ao mesmo tempo.
Aquele silêncio específico onde a educação e a honestidade negociam dentro da garganta quem vai falar primeiro.
Ninguém conseguia comer… e ninguém sabia exatamente por quê.
Só que alguma coisa estava profundamente errada em algum lugar que não conseguíamos identificar.
Eu fui até a cozinha, a caixa de leite ainda estava aberta.
Na frente, em letras grandes que estavam lá desde o início: Leite de Castanha, 100% vegetal!
Três pratos perdidos… e um padrão que eu precisava te contar.
A geladeira ficou aberta por talvez 4 segundos.
A mão dela foi direto onde sempre vai quando procura leite… uma caixa retangular, branca e tamanho familiar.
Ela fechou a geladeira e voltou para o fogão sem desviar o olhar uma única vez para o que estava segurando.
Para quê olhar? Leite é leite.
O problema é que nesse caso não era.
Ela não estava desatenta, nem com o celular na outra mão… não estava pensando em outra coisa e nem com pressa. Ela estava completamente presente.
Presente dentro da versão da realidade que ela esperava encontrar.
O cérebro dela enviou a mão para buscar leite, a mão trouxe uma caixa, e o processo fechou antes de qualquer informação nova conseguir entrar.
Eficiente, automático e completamente cego.
Aqui eu te pergunto algo interessante: quantas decisões você tomou essa semana dentro desse mesmo mecanismo?
Não as óbvias, mas as que você sabe que está no piloto automático. As que parecem escolha consciente mas são, na verdade, o script rodando tão suave que você nem percebe a execução.
Porque a espiritualidade séria eventualmente te coloca diante dessa pergunta.
Não como punição, pelo contrário, como diagnóstico.
Presença é um conceito que muita gente posta nas redes sociais… mas nem sempre consegue sustentar pelo tempo necessário.
É a capacidade de interromper o automático no milissegundo exato em que ele está prestes a te custar algo que você não vai conseguir recuperar.
E muita gente só descobre que estava ausente quando dá a primeira garfada e o gosto não bate.
Às vezes é um jantar, às vezes é uma relação inteira…
Eu chamo isso de Véu de Familiaridade.
É quando a mente cobre a realidade com uma camada fina do que ela já conhece, e você para de ver o que está na sua frente para ver a memória do que costumava estar. O objeto muda, a relação muda, você muda... mas o véu permanece.
Tradições espirituais de diversas culturas têm nomes diferentes para esse estado.
Os budistas chamam de avidyā, ignorância primordial, que não significa burrice mas sim a incapacidade de ver as coisas como elas realmente são.
O sufismo fala em ghaflah, o esquecimento de si.
Na Cabala, é a klipot, as cascas que encobrem a luz.
O nome pode mudar mas a estrutura é a mesma: você está aqui, mas não está vendo aqui.
E o que assusta nesse padrão não é ele existir. Ele existe em todo ser humano com um sistema nervoso funcional. O que assusta é quanto tempo a gente consegue viver dentro dele achando que está acordado.
Você leu sobre presença provavelmente mais de uma vez.
Talvez já tenha feito práticas, teve insights, sentiu aquela clareza específica de quando algo encaixa... e na semana seguinte estava de volta ao mesmo script, com a mesma mão indo para o mesmo lugar, sem checar o que estava pegando.
O que está entre o que você sabe e o que você realmente vive?
Não é falta de intenção... a visita tinha intenção genuína e preparou um prato intragável mesmo assim. Intenção sem presença é exatamente isso: cuidado real, resultado errado, e uma confusão sincera sobre onde as coisas saíram do trilho.
O véu não avisa quando está operando, pois essa é a natureza dele.
Você só descobre depois, quando o gosto não bate, quando a pessoa na sua frente parece estranha de repente, quando você olha para a sua própria vida e pensa: como eu cheguei até aqui sem perceber que estava vindo para cá?
E aí vem a parte que a maioria das pessoas pula rápido demais: o desconforto de reconhecer que você estava ausente não é sinal de que você falhou. É o primeiro segundo de presença real depois de muito tempo. É o momento em que a caixa finalmente está na sua mão, você olha para ela de verdade, e o que estava escrito na frente desde o início finalmente chega até você.
O problema é que esse segundo não sustenta a si mesmo.
Sem estrutura, sem ancoragem, sem algo que interrompa o automático antes que ele complete o ciclo, a clareza dura até a próxima geladeira.
Os três pratos ficaram na mesa até esfriarem.
A visita ficou constrangida, claro.
Eu fiz o que pude para deixar o ambiente mais leve.
Ninguém falou sobre o leite abertamente porque às vezes a gentileza exige que a gente deixe algumas coisas não ditas.
Mas eu fiquei pensando nisso depois, já de noite, com a casa em silêncio.
A caixa estava lá desde o início com tudo escrito na frente.
A informação não estava escondida, não estava em letras pequenas no rodapé, não exigia nenhum esforço especial para ser vista. Ela estava ali, disponível, esperando só que alguém parasse dois segundos para olhar de verdade.
E ninguém parou.
Simplesmente porque o automático é convincente demais.
Ele te diz que você já sabe….que já viu… que pode seguir em frente.
E você segue, com a caixa errada na mão e a absoluta certeza de que está com a certa.
O que na sua vida você está carregando com essa mesma certeza, amor?
Fica com a pergunta… deixa ela pousar em algum lugar onde o automático não chegue primeiro, e depois se quiser responder este e-mail me contando, eu ficarei super feliz!
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Abraço
Silvia Carolo
O Portal

