Adyashanti, um professor espiritual americano, disse uma coisa que incomoda: "Não se engane, a iluminação é um processo destrutivo."

Quando li isso pela primeira vez, fiquei em silêncio por um tempo. Porque a maioria das pessoas que me procura chega com uma ideia muito diferente do que é evoluir espiritualmente. Chega querendo se sentir melhor, mais leve, mais conectada.
E eu entendo, é humano querer alívio. Mas o que eu observo caso após caso, ano após ano, é que o verdadeiro processo de transformação não começa com ganho.
Começa com perda.

E essa perda assusta. Porque não é perda de coisas externas, é perda de quem você acreditava ser.

Existe uma história que tem milhares de anos e que explica isso melhor do que qualquer livro moderno de espiritualidade.

Inanna era a deusa mais poderosa da Suméria.
Governava o céu, a terra, o amor e a guerra.
Tinha coroa, manto real, joias no pescoço e nos pulsos, um cetro na mão.
Era vista, admirada, reverenciada.
Tinha tudo que uma pessoa associaria com poder e identidade.

E um dia, Inanna decidiu descer ao submundo (enfrentar sua sombra).

Ninguém pediu que ela fosse. Ninguém a obrigou. Ela escolheu descer porque sabia que existia algo embaixo de toda aquela superfície que ela precisava conhecer.

O submundo era governado por Ereshkigal, a irmã sombria, a parte que vive onde ninguém quer olhar. E para chegar até ela, Inanna precisou atravessar 7 portões.

Em cada portão, o guardião exigia que ela entregasse algo.

No primeiro portão, tiraram a coroa da sua cabeça. No segundo, os brincos. No terceiro, o colar. No quarto, o peitoral que cobria seu coração. No quinto, o anel. No sexto, a pulseira. No sétimo, o manto real que cobria o corpo inteiro.

Inanna chegou diante de Ereshkigal completamente nua.
Sem título, sem proteção, sem adorno, sem nenhum dos símbolos que diziam ao mundo quem ela era.

Ereshkigal olhou para ela com os olhos de quem conhece cada mentira que alguém já contou a si mesma. Fixou o olhar e Inanna morreu.

Mas não foi o corpo que morreu.

O corpo ficou ali, pendurado num gancho no escuro do submundo, intacto.
O que morreu foi tudo aquilo que Inanna tinha construído em cima de si mesma para existir no mundo. A identidade, o ego, a história que ela contava sobre quem ela era, a deusa poderosa, a governante admirada, a mulher que não precisava de ninguém.

É isso que os antigos chamavam de morte simbólica: o momento em que a pessoa que você acredita ser não consegue mais se sustentar. Não porque alguém a destruiu de fora, mas porque ela mesma desceu fundo o suficiente para perceber que aquela versão era uma construção… útil, bonita, talvez até necessária por um tempo, mas não verdadeira.

Três dias pendurada no escuro.

E esses três dias não foram descanso, foram uma decomposição interna.
Cada certeza que Inanna carregava como verdade absoluta foi se dissolvendo uma por uma.
A autoimagem de força inabalável apodreceu. O orgulho de quem nunca precisou pedir ajuda se desfez. As crenças sobre o que significava ser poderosa, ser digna, ser completa… tudo isso foi caindo como camadas de pele morta, expondo algo cru e desconhecido por baixo.

Não sobrou nenhuma história para contar. Nenhuma identidade para proteger. Nenhuma máscara para segurar no lugar.

Só o vazio.

E foi exatamente nesse vazio, nesse lugar onde o ego já não existia mais para filtrar, controlar e narrar a experiência, que algo novo pôde começar a se formar.
Não por esforço e não por técnica. Mas porque quando o que é falso morre por completo, o que é real finalmente tem espaço para existir.

Eu conto essa história porque ela ilustra com uma precisão cirúrgica algo que eu vejo acontecer com praticamente toda pessoa que entra num processo real de transformação espiritual.

É uma Desconstrução Necessária.

Aquele momento em que o processo espiritual para de somar e começa a subtrair. E quase todo mundo entra em pânico quando isso acontece, porque ninguém te avisou que evoluir ia parecer perder.

Você começa a questionar crenças que sustentaram a sua vida inteira. Relacionamentos que pareciam sólidos começam a ranger. Comportamentos que sempre funcionaram como escudo de repente ficam desconfortáveis. Aquela versão de você que todo mundo conhece e aprova começa a não caber mais e a nova versão ainda não se formou.

É o corredor… você saiu de um quarto, mas ainda não chegou no outro. E o corredor é escuro, é silencioso, e não tem ninguém ali te dizendo que vai ficar tudo bem.

A maioria das pessoas, quando chega nesse ponto, faz uma de duas coisas: ou volta correndo para o quarto antigo e finge que nada aconteceu, ou tenta pular o corredor inteiro buscando a próxima técnica, o próximo curso, o próximo terapeuta que diga que ela já está curada.

Mas Inanna não fez nenhuma das duas coisas. Ela ficou.
Ficou nua, ficou morta, ficou suspensa no escuro.
Porque a passagem exigia que ela não fosse mais ninguém antes de poder se tornar quem realmente era.

Isso é a Desconstrução Necessária.

Não é depressão, embora possa parecer. Não é fracasso espiritual, embora a mente repita isso sem parar. Não é um sinal de que você está no caminho errado… na maioria das vezes, é sinal de que você finalmente entrou no caminho real.

Mas eu preciso ser transparente com você: reconhecer esse processo não é o mesmo que atravessá-lo. Saber o nome do que está acontecendo alivia e alívio é importante.
Mas clareza sozinha não transforma... ela abre a porta.

Quem cruza é você.

Agora eu te convido a olhar para onde você está:

Existe alguma crença sobre você mesma que costumava te dar segurança e que ultimamente já não sustenta mais?

Tem algo na sua vida, um relacionamento, um comportamento, um papel que você ocupa, que está ficando apertado, desconfortável, como roupa que não serve mais?

Se você pudesse tirar tudo o que os outros esperam de você, os títulos, as funções, as obrigações, a imagem, o que sobraria? E essa resposta te traz alívio ou te apavora?

Não tenha pressa em responder.
A pergunta que causa mais desconforto geralmente é a que mais precisa de espaço.

Ritual dos Sete Portões

Esse ritual é de observação. Ele não resolve nada e não pretende resolver, ele mostra o que você ainda está carregando por hábito, por medo ou por não ter parado para questionar.

Durante 7 dias, escolha um momento de silêncio antes de dormir.
A cada dia, identifique uma coisa que você usa para se definir diante do mundo, pode ser um papel ("sou a pessoa forte da família"), uma crença ("preciso dar conta de tudo sozinha"), um comportamento ("não posso mostrar que estou vulnerável"), um hábito, uma máscara, qualquer coisa que funcione como proteção ou identificação.

Escreva num papel, uma por dia.
Não julgue o que aparecer e não tente resolver, só nomeie.

No sétimo dia, olhe para as sete coisas que você escreveu.
Leia em voz alta, uma por uma, devagar.

Depois se pergunte: se eu tirasse tudo isso, quem estaria aqui embaixo?

Apenas reflita! A pergunta em si já é o trabalho.

Se durante a semana você sentir resistência, vontade de pular um dia, de dizer que "não tem nada para escrever", de achar o exercício bobo, anote a resistência também. Ela é a informação mais importante de todas, porque mostra exatamente onde você ainda não se deu permissão para olhar.

Inanna renasceu, mas não voltou a mesma.

Quando subiu do submundo, as pessoas ao redor estranharam.
Ela caminhava diferente… mais devagar, como quem sente o peso real de cada passo e escolhe pisar com intenção.
Os olhos, que antes comandavam exércitos com um único olhar, ainda tinham a mesma força. Mas agora carregavam outra coisa junto… uma espécie de gravidade silenciosa, como se ela enxergasse dimensões nas pessoas e nas situações que antes simplesmente não existiam para ela.

O poder continuava ali, inteiro, talvez até maior do que antes. Mas a natureza dele tinha mudado.
Antes, o poder de Inanna vinha da coroa, do manto, do cetro, do que os outros reconheciam e temiam nela. Agora vinha de um lugar que não podia ser tirado, porque não dependia de nada externo. Era um poder que nascia do conhecimento direto de quem ela era sem nenhum adorno e da descoberta de que essa versão nua, crua, sem título nenhum, era mais forte do que qualquer coisa que ela já tinha vestido.

O que ela perdeu nos sete portões não voltou e não precisava voltar.
Porque aquilo nunca tinha sido ela de verdade.
Era só o que ela vestia para ser reconhecida num mundo que confunde aparência com essência.

Mas teve um preço.

Inanna voltou sabendo que a maioria das pessoas ao redor dela nunca ia entender o que ela atravessou. Voltou mais sozinha numa certa dimensão porque quem desce ao próprio submundo volta enxergando coisas que nem todo mundo está pronto para ver.
E isso muda a forma como você se relaciona com tudo, inclusive com a solidão.

O processo de desconstrução não é castigo, amor. É o começo de algo que só pode existir quando o falso sai do caminho.

Mas isso não significa que seja fácil.
E não significa que você precise atravessar sozinha.

Por enquanto, observe. Só observe o que está pedindo para cair.

Com carinho,

Silvia Carolo
O Portal

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