
A notificação acende na tela do celular às 22h37 de uma terça-feira.
Aquele tipo de mensagem que você sente a energia antes mesmo de abrir, que faz o estômago apertar um pouco, que você já sabe que vem coisa pesada.
O texto aparece em caixa alta, cheio de pontos de exclamação como se os caracteres pudessem transmitir o desespero melhor do que as palavras.
"Silvia, preciso MUITO da sua ajuda URGENTE! Estou passando por uma situação DELICADÍSSIMA!"
Eu olho pro celular e respondo: "Pode falar, estou aqui."
Os três pontinhos começam a aparecer e desaparecer na tela do WhatsApp.
Ela está digitando, apagando, digitando de novo.
A mensagem demora a sair, o que geralmente significa que a coisa é séria mesmo ou que ela está tentando encontrar as palavras certas pra descrever o caos que está vivendo.
Quando a mensagem finalmente aparece, vem em blocos: "É uma situação muito complicada mesmo, não sei mais o que fazer, tá me consumindo, eu não consigo nem dormir de noite pensando nisso, acordo no meio da madrugada com o coração disparado..."
Eu já estou me preparando mentalmente pra ouvir algo denso.
Crise existencial profunda, daquelas que fazem você questionar tudo na vida.
Trauma antigo voltando com força depois de anos enterrado.
Relacionamento em colapso total, daqueles que você olha e pensa "como chegou nesse ponto?".
Algo dela, entende? Algo que estivesse acontecendo na vida dela, com ela, dentro dela.
Então ela manda: "É o MEU IRMÃO."
Eu olho pra tela. Leio de novo. Espero o resto da mensagem chegar.
"Ele começou a namorar uma mulher que tá fazendo MUITO mal pra ele, eu vejo de longe, ela manipula ele, controla tudo que ele faz, e isso tá me afetando DEMAIS! Eu não durmo pensando no meu irmão nessa situação!"
Eu fico uns bons quinze segundos olhando pro celular sem saber exatamente o que responder.
O silêncio da noite amplifica o barulho dos grilos cantantes da noite.
Eu respiro fundo, porque sei que a próxima pergunta vai ser daquelas que ninguém quer ouvir, mas que precisa ser feita.
Digito devagar: "Mas você quer ajuda pra você... ou pro seu irmão?"
Os três pontinhos aparecem. Somem. Aparecem de novo. Somem.
Isso se repete umas quatro, cinco vezes. O silêncio digital grita mais alto do que qualquer resposta poderia gritar.
Finalmente: "Como assim?"
Eu reformulo pra ficar ainda mais claro: "Você está com algum problema na SUA vida que você precisa trabalhar, ou você quer que eu resolva o namoro do seu irmão adulto e vacinado?"
Mais silêncio. Mais três pontinhos aparecendo e sumindo.
A ficha está caindo devagar, dá pra sentir pela demora na resposta.
Ela não estava me procurando pra cuidar da vida dela.
Estava me procurando pra eu validar que ela deveria continuar cuidando da vida do irmão, pra eu dizer que sim, ela estava certa em se preocupar, em perder sono, em gastar energia tentando salvar alguém que não pediu pra ser salvo.
E olha, isso não é caso isolado não, isso acontece o tempo inteiro.
A quantidade de gente que vive a vida dos outros enquanto a própria vida fica ali esquecida, largada num canto, pedindo atenção que nunca chega, é absurda.
Eu vejo isso todo dia.
Sabe por que é tão mais fácil resolver a vida dos outros do que a sua? Porque não dói. Você pode dar todos os conselhos sábios do mundo, pode ter opinião formada sobre cada detalhe, pode se preocupar intensamente e perder sono pensando em soluções.
Mas quando você desliga o celular, quando fecha a conversa, quando vai dormir, as consequências não são suas. O erro não vai te atingir. O acerto não vai te beneficiar.
É vida de personagem, não sua.
É tipo quando você assiste uma série e grita com a TV porque o personagem tá fazendo uma burrada óbvia. Você fica nervoso(a), você se envolve, você até xinga a tela. Mas quando o episódio acaba e você desliga a TV, a vida continua sendo do personagem. Você volta pra sua vida intacta, sem arranhões.
Agora quando é pra olhar pra própria vida de verdade, sem filtro, sem desculpa?
Aí complica. Aí dói.
Aí você precisa admitir coisas que não quer admitir, ver coisas que preferia continuar ignorando.
Aquele relacionamento seu que está morrendo aos poucos, dia após dia, numa agonia lenta que você finge não ver.
Aquele emprego que suga a sua alma todas as manhãs mas você não sai porque "precisa da estabilidade", porque "o mercado tá difícil", porque sempre tem uma desculpa boa. Aquela amizade tóxica que você mantém funcionando por pura culpa, porque "a gente se conhece há tanto tempo", como se tempo justificasse veneno.
Aquele padrão autodestrutivo que você repete há dez anos, sempre com pessoas diferentes mas com o mesmo roteiro, e você continua sem entender (ou fingindo que não entende) por que sempre dá no mesmo.
É infinitamente mais confortável ficar de olho no namoro problemático do irmão, no casamento em crise da prima, na carreira estagnada do amigo, na forma questionável que a vizinha cria os filhos.
Porque enquanto você está ali, fiscalizando porta alheia, você não precisa olhar pra porta da sua própria casa que está caindo aos pedaços.
Vou te falar uma verdade que vai incomodar bastante: você não é responsável pela vida de ninguém além da sua.
Nem do seu irmão mais novo que você criou. Nem da sua mãe idosa.
Nem do seu melhor amigo desde a infância. Nem dos seus filhos adultos que já deveriam estar se virando sozinhos.
Cada pessoa nesse planeta precisa tropeçar nas próprias pedras, cair de cara no chão, ralar os joelhos, levantar com sangue no nariz.
O seu irmão vai namorar quem ele bem entender. A sua amiga vai tomar as decisões ruins que ela tiver que tomar. O seu primo vai fazer as besteiras que o destino dele pedir. E você não pode fazer absolutamente nada quanto a isso.
E tudo bem, amor. É assim mesmo que funciona.
Porque é tropeçando que a gente aprende a andar com mais cuidado. É caindo que a gente descobre onde estão os buracos.
É errando que a gente finalmente entende o que é acertar. É assim que a gente vira adulto de verdade, não só no RG.
E tem uma coisa que ninguém percebe mas é transformador: quando você fica ali, se corroendo por dentro, sofrendo pela vida do outro, tentando controlar o incontrolável, tentando "ajudar" quem não pediu ajuda, você não está sendo solidário(a).
Você está atrapalhando.
Sério mesmo, você está atrapalhando o processo natural da pessoa.
Você está tirando a oportunidade sagrada da criatura aprender com os próprios tombos. Está roubando dela a chance de desenvolver resiliência, de ganhar força, de construir a própria sabedoria através da experiência vivida na pele.
Está impedindo o crescimento real que só vem quando você fica sozinho(a) diante das próprias escolhas e das consequências delas.
É como querer carregar alguém nas costas a vida inteira achando que está fazendo um favor gigantesco, quando na verdade você está impedindo aquela pessoa de desenvolver as próprias pernas, de aprender a andar sozinho(a), de descobrir que é capaz.
Você ficar ali, perdendo sono toda madrugada, roendo as unhas de preocupação, se consumindo por dentro com decisões que não são suas, não vai mudar nada na vida da outra pessoa.
Absolutamente nada. Zero. A pessoa vai continuar fazendo as escolhas dela do jeito que ela achar melhor, vai continuar errando do jeito dela, aprendendo no tempo dela.
A única coisa que vai mudar é que você vai ficar exausto(a,) frustrado(a), esgotado(a).
E no final do dia, os seus problemas reais vão continuar ali, sentadinhos no canto, esperando pacientemente por você.
Porque adivinha uma coisa? Os seus problemas não desaparecem magicamente só porque você está ocupado(a) demais fiscalizando a vida alheia.
Eles ficam lá, crescendo, se acumulando, pedindo atenção.
Sabe aquela história clichê da grama do vizinho que parece sempre mais verde? Pois é, ela parece mais verde sim, e eu vou te falar por quê.
Porque você passa o dia inteiro lá, ajoelhado(a) na grama do vizinho, com a mangueirinha na mão, regando cada cantinho com dedicação de jardineiro(a) profissional, tirando cada folha seca, cuidando de cada detalhe como se fosse problema seu.
Enquanto isso, a sua grama está ali do outro lado do muro, completamente abandonada, seca, rachada, as plantas morrendo de sede, praticamente gritando "PELO AMOR DE DEUS, OLHA PRA MIM AQUI!", mas você não ouve porque está ocupado(a) demais cuidando do jardim que não é seu.
E o mais engraçado? A pessoa dona daquele jardim que você tanto rega nem pediu isso. Ela não te contratou. Ela não implorou pela sua ajuda.
Ela está lá, vivendo a vida dela do jeito dela, errando à maneira dela, aprendendo no ritmo dela, cuidando (ou não cuidando) do jardim dela como bem entender.
Você que decidiu sozinho(a) que o problema dela é automaticamente problema seu também. Você que escolheu deliberadamente carregar nas costas um peso que não era seu pra carregar, que ninguém te pediu pra carregar.
Então eu respirei fundo e disse pra ela, sem rodeios: "Olha, você tem basicamente duas opções bem claras aqui na sua frente. Pode continuar gastando toda a sua energia preciosa tentando controlar a vida do seu irmão, que, diga-se de passagem, você não vai conseguir controlar de jeito nenhum porque ele é um adulto crescido com livre arbítrio funcionando. Ou você pode fazer uma escolha diferente: voltar pra sua própria vida e cuidar daquilo que realmente, verdadeiramente, é da sua conta cuidar. Que é você. Só você."
O silêncio que veio depois foi pesado, denso, daqueles que você sente o peso mesmo através da tela do celular.
Depois de uns bons três minutos, ela respondeu: "É… você tem razão…”
Pois é, meu amor. A gente raramente para pra pensar mesmo.
Porque pensar dói. Olhar de verdade pro que a gente está fazendo com a própria vida dói. É mais fácil, mais confortável, mais seguro continuar no piloto automático, continuar desviando da própria existência enquanto finge que está sendo altruísta cuidando da vida alheia.
Mas agora que você pensou, agora que a ficha caiu, e agora?
O que você vai fazer com essa informação?
Vai continuar igual ou vai ter coragem de mudar?
Exercício pra essa semana:
Toda vez que você se pegar preocupado(a) de verdade, opinando sem ter sido solicitado(a), tentando resolver ativamente alguma coisa na vida de outra pessoa adulta e capaz, para o que estiver fazendo….
Respira fundo três vezes. E faz uma pergunta bem honesta pra você mesmo:
"Tem algo na MINHA vida, algo meu mesmo, que eu estou evitando olhar agora neste exato momento?"
Pega um caderno e anota a resposta que vier. Vai aparecer alguma coisa, pode apostar. Sempre aparece quando a gente faz a pergunta certa.
Depois você faz uma escolha consciente: continua ali, ajoelhado(a), regando o jardim que não é seu?
Ou levanta, sacode a terra das mãos, e volta pro seu próprio jardim que está morrendo de sede?
A sua vida está te chamando, amor. Ela está ali, batendo na porta, mandando mensagem, acenando pela janela, fazendo de tudo pra você prestar atenção nela.
Mas você não ouve porque está ocupado(a) demais prestando atenção na vida de todo mundo menos na sua.
Silvia
O Portal
PS: Me segue lá no Instagram @terapeutasilviacarolo … lá eu compartilho diariamente sobre esses padrões inconscientes que a gente repete sem perceber que está repetindo.
E se essa newsletter acertou em cheio no seu peito, encaminha pra pelo menos 5 pessoas. Principalmente aquela pessoa específica que você sabe que precisa urgentemente parar de viver a vida dos outros e voltar pra viver a própria antes que seja tarde demais.

