Era um sábado de manhã… o café ainda quente na xícara. e o celular vibra na mesa.

Uma mensagem de alguém que eu não conheço… indicação de uma amiga.
"Silvia, me passaram seu contato. Preciso de ajuda."

Respondi, conversei um pouco, e pedi o que sempre peço antes de aceitar qualquer trabalho: me manda um áudio, eu preciso ouvir a voz.
Pela voz é uma das maneiras que leio o campo, que eu sinto o que está acontecendo com a pessoa antes mesmo de ela explicar.

O áudio chega… eu aperto o play.

Choro… aquele choro que rasga a garganta, que sai em soluços irregulares, que mal deixa a pessoa respirar entre uma frase e outra… a respiração curta, apertada e desesperada.

E então as palavras começam a sair, quebradas, aos pedaços, cada sílaba custando um esforço visível:

"Silvia... eu não... eu não aguento mais. Não aguento mais viver assim. Eu estou pensando... eu estou pensando em tirar a minha vida. Por favor... por favor me ajuda."

Minha mão paralisa segurando o celular.

O café esfria.

E alguma coisa muito antiga dentro de mim, aquele reflexo treinado durante anos de querer salvar todo mundo, começa a gritar: largue tudo e vá socorrer essa mulher agora.

Mas outra voz, mais funda, mais nova, mais sábia, sussurra baixinho:

Não.

Respirei fundo, ouvi o áudio de novo e comecei a sentir.

Não era só dor ali… tinha algo mais.
Uma densidade ao redor daquele desespero, um campo pesado, grudento, que vinha junto com a voz dela.
Obsessores… vários ao redor dela, se alimentando daquele sofrimento, amplificando aquela agonia.

E de repente eu entendi: aquilo não era só um pedido de ajuda, era um teste.

Um teste espiritual disfarçado de emergência emocional.

Porque se eu dissesse sim, se eu entrasse naquele campo sem pensar, movida só pela urgência do desespero dela, eu não estaria salvando ninguém.
Eu estaria abrindo uma porta.

E eles iam entrar.

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