A primeira coisa que noto é a mandíbula dele. Travada. O maxilar trinca dos dois lados quando ele fala, como se cada palavra custasse um esforço físico que ele já nem percebe mais.
"Eu não entendo, Silvia. Eu fiz tudo."
As mãos dele estão abertas sobre a mesa, palmas pra cima, como quem mostra que não tem mais nada escondido. E não tem mesmo. Esse homem virou do avesso nos últimos meses, mudou mentalidade, mudou postura, mudou a forma como pensa sobre dinheiro, sobre valor, sobre o que merece receber. Ele é o tipo de pessoa que quando decide, executa. Sem enrolação, sem desculpa, sem meio-termo.
E mesmo assim o dinheiro não fica.
Entra por um lado, escoa pelo outro. Oportunidade chega até a porta e congela ali, como se tivesse batido num vidro que ninguém vê. Ele faz conta, refaz, planeja, executa e no fim do mês olha pro saldo e não entende como é possível que tudo que entrou simplesmente evaporou.
Eu observo ele falando e presto atenção no que o corpo diz enquanto a boca reclama. Os ombros caídos pra frente, aquela curvatura de quem carrega peso invisível nas costas há tempo demais. A respiração curta, rasa, como se o peito tivesse esquecido que pode se expandir.
"Você mudou de endereço quando, mesmo?"
Ele para. Franze a testa. Não esperava essa pergunta.
"Faz uns dois anos. Comprei o terreno pra instalar a empresa num lugar maior."
"E antes disso, como era?"
O rosto dele muda. Alguma coisa amolece por trás da frustração, como se eu tivesse tocado numa memória que ele não visitava fazia tempo.
"Antes era diferente, Silvia. Na outra casa, mesmo sendo tudo menor, a vida fluía. Eu tinha grana, tinha amigos, tinha leveza. Quando decidi crescer e vim pra cá..."
Ele engole seco.
"...as coisas só caíram."
Mesmo homem, mesma cabeça, mesmo esforço, lugar diferente e resultado oposto.
Eu já sei o que preciso olhar.

