3:27 da manhã.

A televisão liga sozinha… volume no máximo... estática branca preenchendo a sala escura. O barulho alto demais, agressivo demais pra hora… aquele chiado agudo que corta o silêncio da madrugada como vidro quebrando.

Todo mundo acorda de uma vez em um pulo da cama. Corações disparados. Aquele susto que faz o corpo inteiro tremer antes do cérebro entender o que está acontecendo.

O homem da casa levanta cambaleando, ainda meio dormindo, e desliga a TV. O controle remoto está dentro da gaveta. Sempre esteve. E ninguém tocou nele.

Ele volta pra cama… tenta dormir de novo mas não consegue. Fica ali deitado, com os olhos abertos no escuro, ouvindo os próprios batimentos do coração lentamente voltando ao normal.

Na manhã seguinte, ninguém fala sobre isso na mesa do café. Porque se ninguém falar, talvez não seja real. Talvez tenha sido um curto-circuito. Ou a fiação velha.
Talvez qualquer coisa que faça mais sentido do que o que todo mundo está pensando mas ninguém quer dizer em voz alta.

Isso acontece há semanas.

Antes era a luz da sala que piscava sozinha. Antes disso era o rádio da cozinha ligando no meio da noite. E antes disso eram barulhos que vinham de lugar nenhum.

Muito antes, eram só as brigas…

Quando a família me ligou, a voz do outro lado do telefone tinha aquele tom que eu reconheço imediatamente. Não é pânico gritado... é cansaço.
Aquele tipo de exaustão profunda, violenta, de quem não aguenta mais viver dentro da própria casa mas não sabe pra onde ir, não sabe o que fazer e não sabe nem como explicar o que está errado.

"Silvia, eu preciso de ajuda. Tudo aqui dá errado. Ninguém dorme direito. A gente briga por qualquer coisa, por nada. E estão acontecendo coisas que... eu não sei nem como falar sobre isso sem parecer louca."

Coisas que eu não sei como falar.

Essa frase... sempre essa frase aparece eventualmente. E quando alguém chega nesse ponto, quando já passou do medo de ser julgado, do medo de parecer maluco (e simplesmente pede ajuda porque não suporta mais um dia vivendo assim) é porque o que está acontecendo já ultrapassou toda e qualquer explicação racional que a pessoa conseguiu inventar pra si mesma.

Combinamos a visita.

Cheguei num sábado de tarde. O céu estava cinza… aquele tipo de dia sem sol definido que deixa tudo meio opaco, meio sem vida e sem cor.

Antes mesmo de tocar a campainha, antes mesmo de a porta se abrir, algo mudou no meu corpo.

A temperatura caiu. Não no termômetro, na pele.
Aquele frio que não vem do ar mas de outra coisa… aquele frio que você sente quando está perto de algo que não deveria estar ali.

A minha respiração ficou mais pesada. Cada passo que eu dava em direção à porta da frente parecia exigir muito mais esforço do que deveria. Era como andar dentro da água ou como se o ar tivesse densidade, resistência.

A porta se abriu com aquele ranger de filmes de terror.

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