Final de semana passado, o Bento me faz uma pergunta.
A gente estava conversando no sofá, aquele papo solto de fim de tarde, quando ele olha pra mim com aqueles olhos de criança que quer saber a verdade de algo importante e pergunta: "Mãe, quanto você ficou feliz quando descobriu que estava grávida de mim?"
O silêncio que veio depois da pergunta foi daqueles pesados, carregados de escolha. Eu podia mentir e seria tão fácil mentir, seria a resposta que a sociedade inteira espera que toda mãe dê. "Ah meu filho, fiquei feliz demais, foi o dia mais feliz da minha vida, eu sempre te quis."
Mas aqui em casa não tem rodeio, sabe? Aqui a gente fala a verdade, mesmo quando dói, mesmo quando ela não é bonita.
Então eu respirei fundo e falei pra ele: "Não, meu amor. Eu não fiquei feliz. Eu fiquei com muito medo, fiquei assustada, eu nunca tinha pensado em ser mãe e de repente estava grávida. Foram muitas emoções difíceis."
Ele ficou me olhando, processando, e então perguntou: "E da mana? Você também não queria?"
"Também não. Também levei um susto muito grande, também precisei de vários dias pra processar. Mesmo já sendo mãe, mesmo já sabendo o que fazer, me assustou de novo. Acho que me assustou justamente por causa do gatilho da primeira gestação."
Mais silêncio. Aquele silêncio onde você não sabe se fez a coisa certa ou se acabou de causar um trauma irreparável no seu filho.
Aí eu continuei, porque a verdade não pode parar no meio: "Mas hoje, meu filho, eu não consigo imaginar minha vida sem vocês. Vocês são a razão da minha felicidade, aquela força que me faz levantar todo dia, que me motiva a crescer, a fazer as coisas. Não foi fácil no começo, eu não queria, eu não fiquei feliz, mas hoje vocês são tudo pra mim."
(OBS. A verdade é poderosa e por isso no final deste e-mail deixei um presente para você.)
Eu sei o que você está pensando: "Silvia, como você teve coragem de dizer isso pro seu filho?"
E eu te pergunto de volta: como eu teria coragem de mentir?
Porque olha, a gente vive numa sociedade que obriga mãe a performar desejo eterno e incondicional desde a concepção. Você tem que dizer que sempre quis, que foi planejado, que foi o momento mais feliz da sua vida, que você olhou pro teste de gravidez positivo e chorou de alegria.
Mas e se não foi assim? E se você olhou pro teste e sentiu o estômago embrulhar de pânico? E se você chorou, mas não de alegria, de medo, de desespero, de "meu Deus, o que eu vou fazer agora?"
A gente mente. A gente esconde. A gente constrói uma narrativa bonita por cima da verdade feia porque a sociedade diz que mãe que não desejou o filho é mãe ruim, é mãe que não ama de verdade.
Mas isso é mentira, amor. Mentira completa.
Deixa eu te contar uma verdade escondida: amor que nasce de escolha diária é infinitamente mais forte do que amor que nasce de desejo inicial.
Quando eu disse pro Bento que não quis ele no começo, eu dei pra ele um presente enorme, eu mostrei que o amor que sinto por ele hoje não é obrigação biológica, não é instinto materno automático, não é algo que veio pronto de fábrica.
É escolha. Todos os dias… eu escolho amar. Eu escolho estar presente, eu escolho ser mãe.
E isso tem um valor que "sempre te quis desde o primeiro segundo" nunca vai ter.
Porque "sempre te quis" é passivo. É fácil. É esperado.
Mas "não te quis, tive medo, quase entrei em pânico, mas escolho te amar todos os dias desde então"? Isso é ativo. Isso é real. Isso é amor de verdade.
E tem outra coisa que ninguém fala sobre isso: quantas vezes na sua vida você brigou, chorou, esperneou contra algo que estava chegando e depois levantou as mãos pro céu agradecendo por aquilo ter acontecido?
Quantas vezes você resistiu com todas as forças contra uma mudança, um término, uma perda, uma situação nova e depois, anos depois, olhou pra trás e pensou "graças a Deus aquilo aconteceu, porque me trouxe até aqui"?
A vida tem esse jeito engraçado de te forçar a crescer. Ela não pergunta se você quer. Ela simplesmente acontece. E você pode passar a vida inteira lutando contra, ou pode aprender a dançar com o que veio.
Eu não queria ser mãe. A vida me fez mãe. Duas vezes.
E hoje eu sou grata, não pela gravidez em si, não pelo susto inicial, não pelo medo que senti. Mas pelo que veio depois. Pela transformação que isso me forçou a viver. Pela pessoa que eu me tornei porque precisei aprender a amar algo que não escolhi no começo.
Mas olha, eu não estou romantizando isso aqui como se fosse fácil ou automático. Não foi.
Mesmo na segunda gravidez, quando eu já era mãe experiente, quando eu já sabia exatamente o que fazer, o gatilho da primeira gestação voltou. O medo voltou. O pânico voltou.
Porque trauma não é linear, amor. Você não cura uma vez e pronto, está curado(a) pra sempre. O corpo lembra. A memória celular guarda. E quando situação parecida aparece de novo, mesmo você estando "já curado(a)", o medo pode voltar.
E está tudo bem. Isso não significa que você não evoluiu. Significa que você é humano(a), que algumas marcas são profundas demais pra apagar completamente.
O que muda é como você lida com o medo quando ele volta.
Então te pergunto agora, com toda sinceridade: o que você está rejeitando hoje que pode ser sua maior bênção amanhã?
Que situação chegou na sua vida sem você pedir, sem você querer, que você está lutando contra com todas as forças, mas que talvez, só talvez, seja exatamente o que você precisa pra virar quem você precisa ser?
Aquele emprego que você não queria mas teve que aceitar.
Aquele término que te destruiu mas que te libertou.
Aquela mudança que te apavorou mas que te transformou.
Aquela perda que te quebrou mas que te reconstruiu mais forte.
Você está brigando contra ou está começando a dançar?
E tem outra pergunta mais difícil ainda: você tem coragem de admitir que não queria o que hoje é sua maior bênção?
Porque a gente mente muito sobre isso, sabe? A gente reescreve a história. A gente pinta uma narrativa bonita por cima da verdade feia.
"Ah, eu sempre soube que aquele emprego era pra mim."
Não. Você chorou no banheiro no primeiro mês querendo desistir.
"Ah, eu sabia que terminar era o certo."
Não. Você implorou pra pessoa voltar por semanas.
"Ah, eu sempre quis isso."
Não. Você lutou contra com unhas e dentes até não ter mais escolha.
E está tudo bem ter lutado contra. Está tudo bem não querer no começo. Está tudo bem ter levado tempo pra aceitar, pra amar, pra agradecer.
A gratidão forçada não transforma ninguém. A gratidão real, aquela que vem depois da resistência, depois da luta, depois do tempo, essa sim muda tudo.
Quando eu disse pro Bento que não quis ele no começo, eu libertei ele de uma prisão invisível: a prisão de achar que ele precisa ser perfeito pra merecer amor, que precisa corresponder a uma expectativa eterna, que precisa ser grato por existir.
Não. Ele existe. Eu não escolhi isso no começo. Mas escolho amar todos os dias desde então.
E isso é amor de verdade.
Exercício pra essa semana:
Pensa em algo que chegou na sua vida sem você querer, que você resistiu, que te assustou mas que hoje você é grato(a por ter acontecido.
Anota. Sente o contraste entre o medo inicial e a gratidão atual.
E se pergunta: o que está chegando agora que você está rejeitando, que talvez seja sua próxima grande transformação?
Você não precisa gostar logo de cara. Você não precisa fingir gratidão imediata. Você pode ter medo, pode resistir, pode levar tempo.
Mas para de lutar eternamente contra o que já chegou. Começa a dançar.
P.S.:1. Me segue no Instagram @terapeutasilviacarolo pra mais dessas verdades que a sociedade não deixa a gente falar.
P.S.2. Aqui está o presente que falei no início deste e-mail. Pratique por no mínimo 21 dias e depois responde este e-mail me contando os resultados. Estou te desafiando! A mudança só vem com ação consistente.
E se essa newsletter mexeu com você, encaminha pra 5 pessoas. Principalmente aquela que está lutando contra algo que talvez seja exatamente o que ela precisa.
Abraço
Silvia
O Portal

